Salvador

Todos aqui sabem que fumo, e fumo demasiadamente, e fiz um teste para saber se um salvador ou uma alma boa faria algo para me salvar. De manhã entre 7 e 8 horas durante um mês e meio, saio de uma estação do metro e me dirijo ao local de trabalho. Nesse percurso posso fazê-lo de duas maneiras principais, ou pegando um ônibus, ou de a pé. Esse percurso dado o modal de transporte pode demorar menos ou mais, sempre optei por descer de a pé para validar o experimento.

Experimento esse que não deveria ser feito, dados os prejuízos. Fumei quantos cigarros conseguia, enquanto caminhava e bebia coca-cola. Não sei quanto a você, mas a mim, qualquer indivíduo que fume e tome coca logo de manhã, não está condições psicológicas saudáveis. O percurso dura em média 50 minutos. E adivinha.

Durante esse tempo, ninguém apareceu, ninguém mesmo. Talvez sequer tenham notado alguém com quase a mesma roupa todo dia, fazendo o mesmo percurso, no mesmo horário e com hábitos tão destrutíveis. É como uma depressão, ninguém vê, até que se torne difícil a convivência ou o lidar.

Dentro deste contexto, não recebi uma indagação de porque fazer aquilo. Não recebi nenhuma mensagem de incentivo para mudar aquele comportamento. E também nenhuma crítica, é como se simplesmente não existisse. Esse provavelmente deve ser o sentimento de indigentes.

Talvez eu mesmo não fizesse nada (tendo percebido o indivíduo), essa última frase me define, se eu mesmo não faria isso, porque esperaria de outras pessoas? Você é aquilo que transborda.

Concluindo. Não houve nenhuma tentativa de interferência, apesar de haver um suicídio paulatino. Isso mostra além de que o salvador não aparecerá, que independente do que você faça, ninguém o tentará impedir, ou fará algo no sentido contrário (lógico que não estou falando de matar alguém). Por isso não deixe de fazer nada por ninguém, ou por opinião nenhuma, no final das contas, você é o só o cara caminhando, fumando e se matando, este último, destino comum a todos.